Arquivo do mês: janeiro 2009

O espaço na cidade – Praça Ana Lúcia Magalhães

“Em meio a construção de tantos prédios, surgem espaços, como esse, que antes não eram tao valorizados e que hj tomam um importância que acredito ser imensurável para o bom convívio social de uma comunidade, envolvendo lazer, cidadania, meio-ambiente, etc. ”  Eduardo Bezerra

 

Itaigara - Salvador - Bahia

Itaigara - Salvador - Bahia

Logo na chegada em Nova York, em nossa primeira visita, no ano de 1996, algumas coisas chamaram a atenção. Destaque para a sempre valorizada mistura de estilos, de nacionalidades e as inúmeras opções de lazer, com teatros, museus, bibliotecas e monumentos. Evidente que o Central Park também é uma obra de grande importância para a vida da cidade, pois foi planejado com muita inteligência para se integrar aos interesses do cidadão. É o grande monumento da metrópole. Mas além desses espaços conhecidos mundialmente, observamos outros dois pequenos detalhes, entre os infinitos possíveis.

Primeiro, o ritmo de vida não permite o deslocamento para o almoço em casa para quase todos que trabalham. Isso, apesar de um sistema de transporte, principalmente organizado a partir de metrô e ônibus, muito bom. A partir desse fato, as pessoas costumam almoçar rapidamente próximo aos locais de trabalho e às escolas/faculdades. Porém, o almoço fora da residência é diferente do que estamos acostumados nas grandes cidades brasileiras! Não é sentar em uma mesa em um local fechado, exclusivamente.  É também comprar embalagens de saladas, sanduíches (naturais ou não), sucos, sobremesas e até pratos executivos, para o consumo sentados em praças, largos, escadarias de prédios públicos, sempre aproveitando o tempo dedicado à alimentação para esparecer, relaxar e encontrar pessoas.

Segundo, e aí chegamos ao ponto que merece atenção em nosso processo de desenvolvimento, há diversas pequenas praças, bem conservadas em muitos lugares. São espaços que servem para esse convívio no almoço, mas também para o passeio dos mais experientes no início da manhã, para o exercício físico, para a brincadeiras das crianças de todas as idades. Isso funciona como uma válvula de escape para as tensões diárias. Essas praças são arborizadas, possuem equipamentos públicos que funcionam, são protegidas por rondas policiais. É muito bom poder parar por alguns instantes em um desses lugares para meditar, esfriar a cabeça, ouvir os pássaros e sorrir para desconhecidos.

Nossas grandes cidades, com honrosas exceções, não possuem esses espaços de convivência. Diversão é praia, shopping e algumas outras pequenas coisas. Sempre fiquei em dúvida se as praças de Nova York teriam boa aceitação em Salvador. Recentemente, essa pergunta foi respondida com a inauguração da Praça Ana Lúcia Magalhães, no Itaigara. Cada vez mais, é um local que atrai pessoas. Seja para a prática de esportes, teatro, capoeira ou brincadeiras. Reune pessoas de todas as idades, todos os dias da semana, em todos os horários. É uma opção que serve como alternativa para um final de tarde de sábado , com as crianças,  sem custo, para a realização de um programa familiar e saudável. Isso que muitas árvores ainda não dão sombra…

O espaço era desocupado anteriormente e sem urbanização. A Praça possui ciclovia, parquinho para as crianças, aparelhos de ginática e pista de cooper. Possui estacionamento para carros, cobrado durante o horário comercial. Uma rápida ação da Prefeitura e um acordo de conservação com uma empresa privada, presenteou os moradores da região e todos os demais que a visitam um equipamento público de grande valor e que está recaracterizando a convivência no bairro.

Que sirva de exemplo para a reprodução em outros espaços de nossas cidades.

Você tem um espaço público próximo à sua casa que dê prazer em frequentar? Comente.

Verão: calor, praia e lei seca

O domingo começou chovendo, mas no meio da manhã o sol deu o ar da graça e brilhou forte, trazendo temperaturas que convidavam para o melhor programa do dia semanal dedicado ao descanso: PRAIA. É verdade que é o dia menos propício para o descanso nesse tipo de programa, mas estava realmente convidativo.

Fui com a família para Stella Maris, tradicional praia de Salvador. O caminho foi tranquilo, com pouco trânsito. Estacionamos fácil e nos instalamos em uma barraca. Essa foi a sequência: protetor solar, água, picolé Capelinha (você não conhece Salvador – Bahia – Brasil ?), banho de mar, queijo coalho assado (nunca foi à praia em Salvador?), mais picolé Capelinha, banho de mar, água de côco (fabulosa), acarajé cortadinho no prato (já ouviu falar?), água mineral, banho de chuveirão, conta e de volta para o carro. Durante todo esse tempo, de 11 horas às 15 horas, o sol cresceu e começou a diminui de intensidade, causando grande relaxamento e bem estar. Geralmente as pessoas saem da praia quando chega o meio-dia, mas logo depois é que a praia começa a ficar melhor, com o calor diminuindo.

O programa típico de “ir à praia” em Salvador não termina nessa saída da praia, mas em um dos bares da cidade, com nova sequência de consumo: cerveja, água, refrigerante, carangueijo, filé com fritas, cerveja, moqueca de camarão, pirão, cerveja. O custo aumenta, mas o entretenimento fica mais completo.

Para terminar, um sorvete na padaria e está feita a alegria da família no Domingão. Xô Faustão!

Ensaios de verão I – Negra Cor

Ontem fui ao ensaio da Negra Cor no Bahia Café Hall na Papalela. Chegada tranquila, estacionamento R$ 10 antecipado. Apesar do horário de início previsto para 21 horas, chegamos depois das 22h30min e ainda não havia começado. Logo depois começou com a banda baiana Batifun. Tocou um interessante repertório de sambas, movimentando o público presente. Os caixas para compra de fichas de bebidas estavam tranquilos, durante todo o evento, assim como o serviço de biritas. O intervalo foi longo e o show da banda anfitriã foi regular, sem grande ânimo, tendo como ponto alto a participação especial de Jau, que cantou alguns sucessos e fez boa dobradinha com Adelmo Casé. O repertório da Negra Cor atualmente é de músicas das grandes bandas de axé e pagode, cantando os sucessos, com poucas novidades e sem a mesma animação dos autores (Chiclete, Asa, Ivete, Psirico). A mesa de controle é muito grande para o espaço e atrapalha a visão de quase metade da área. O espaço do camarote estava bem lotado. Um ponto que merece atenção são os carrinhos de Camareto e Espetinhos em meio ao público, contaminando o ambiente com o cheiro forte. Quem se aproxima, parece estar assistindo de dentro de uma cozinha durante a fritada de batatinhas. Valeu como programa de sexta à noite no verão baiano. Outra vez? Dentro de 5 anos…

Faqueiro = R$ 5,99 (Os limites da Terra)

Em tempo de renovação da esperança, pós inauguração de Obama, a vida continua. Ontem fui ao hipermercado, o mesmo que frequento há quase 20 anos. Antes, era de um empresário local. Depois, quase faliu e foi vendido para um grupo de outro estado brasileiro. Logo após, foi comprado por um grupo holandês. Hoje é de propriedade de um dos maiores grupos conglomerados empresariais do mundo, com sede nos EUA. Nesse período, observei muitas mudanças. As principais foram: 1) aumento da variedade de marcas; 2) remodelagem das lojas; 3) inclusão de outros itens anteriormente não comercializados em supermercados, a exemplo de roupas, eletroeletrônicos, pneus etc; 4) facilidade de pagamento de contas nos caixas; 5) novas lojas dentro da loja, como farmácia, lanchonetes, salão de beleza, dentista, colchões, tv por assinatura, lotérica; 6) invasão de produtos importados de gosto duvidoso; e 7) um locutor, ao melhor estilo das feiras livres, que fica anunciando ofertas por todo o tempo.

A melhor oferta de ontem era um faqueiro de R$ 5,99. Não acreditei e fui ver de perto, pois eram as últimas unidades da quarta remessa (palavras do feirante-locutor). O produto era composto por 24 peças, sendo 6 unidades de cada um dos talheres: garfo, faca, colher de sopa e colher de sobremesa. Cabo plástico, de inox, embalados em plástico, cuidadosamente alocados em grade de metal, como se fosse a repartição interna de uma gaveta.

Lembrei imediatamente do filme The history of stuff, de Annie Leonard (que ainda não assistiu, vale muito a pena. Em http://www.storyofstuff.com/

Será que os custos para a criação, produção, embalagem, transporte desde a China, taxas alfandegárias, impostos, margem de todos os intermediários poderiam ser cobertos com esse preço?

Mais ainda, será que o balanço da energia gasta nesse processo é positivo para o planeta? Os recursos naturais gastos, os resíduos da produção e do descarte final do produto, as embalagens são cobertos por esse preço?

Hoje pela manhã, recebi um e-mail muito interessante, que divulgou um texto escrito recentemente por Leonardo Boff, falando sobre a sustentabilidade do modo de vida atual, que vai muito ao encontro do discurso de Obama.

Boff usa a informação que nosso estilo de vida hoje consome 140% da capacidade de regeneração do planeta, comprometendo o futuro de nossa espécie.

Imperdível, vejam o texto em http://envolverde.ig.com.br/materia.php?cod=55447&edt=

Tá na hora de mudarmos nosso modelo atual, olhando para o futuro de nossos filhos e netos, ou queremos continuar rumo ao que previa o filme clássico dos anos 80, Mad Max?

O discurso de Obama

Fiquei muito bem impressionado com o discurso de posse de Barack Hussein Obama ontem. Ele baseou sua argumentação em valores e princípios, criticou duramente o modo como as coisas ocorrem atualmente, especialmente quanto aos interesses privados se sobrepujando sobre a sociedade. Foi uma fala sem vacios ou consulta a papéis. Durante os quase vinte minutos, o discurso foi impregnado de emoção, levando o público estimado em dois milhões de pessoas ao delírio. O que mais marcou foi o resgate dos ideais dos fundadores da nação norte-americana, reforçando o valor do trabalho, o mérito, o esforço, o combate às injustiças. Ele procurou retomar as ideias “antigas” de que todos merecem oportunidades e que o valor das ações determina os resultados a serem alcançados. Foi realmente um bom discurso. Evidente que foi preparado por outras pessoas. É sempre assim. Mas ele assumiu de tal forma, que parece ter saído de suas entranhas, o que, por si só, é um grande mérito. Tenho certeza que muitos resignificaram o papel dos EUA no mundo e como os valores ainda são úteis ao nosso tempo.

Qual a surpresa? As bolsas não reagiram bem. Se o novo líder máximo do país mais poderoso do mundo assume uma postura conciliadora, de esperança, de diminuição das desigualdades, de valorização do mérito, da necessidade de publicização das ações do estado e de estímulo à paz, e os mercados financeiros não recebem bem esse tipo de comportamente, as bolsas são contrárias ao que é bom para a humanidade!

Para ver um bom comentário sobre o discurso, principais trechos e maiores detalhes, consulte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2009/01/090120_analise_discurso_cq.shtml

Lições Aprendidas em 2008

A pedidos, incluo a mensagem de final de ano apresentada anteriormente.

Que sirva de inspiração!

1) Todo o mar, quando está muito calmo, anuncia turbulências, prepare-se. Só não sabemos precisar o tempo em que isso ocorre – A crise está aí, repleta de boas ondas para serem surfadas pelos que construíram habilidades e competências.

2) Inovação é a palavra do nosso tempo, priorize. A inovação não pode ser vista como luxo. O mercado cada vez mais competitivo exige organizações inovadoras, dinâmicas, vivas.

3) O conhecimento tem posição central nessa nova era, entenda. Vivemos, de fato, a Sociedade do Conhecimento. Ele é transformador, viabilizador e elemento-chave do futuro.

4) As pessoas têm valor fundamental, valorize. Como nunca na história, gente é o pilar mais importante de todos os processos da sociedade, em todas as áreas. E o valor das pessoas é fruto de suas práticas, seus exemplos, seus princípios, seu caráter.

5) A vida é rápida, ouse. Metas ambiciosas e desafiadoras consomem energia equivalente às preocupações com questões pequenas. Voe alto, veja a floresta. Deixe de lado visões parciais que só roubam tempo e saúde.

6) A vida é para viver, com prazer. Em todas as nossas ações podemos ficar preocupados com o que ainda falta, ou olhar com orgulho tudo o que já fizemos. Em qualquer das opções, a nossa postura é que define a beleza das coisas. Depende do seu olhar.

7) Organização é um bom começo, ou recomeço. No mundo das organizações, cresce a importância da estruturação de processos, no repensar das práticas, em busca de melhores resultados e esforços otimizados. Em tempos de recursos mais escassos, o que está disponível deve ser muito bem utilizado.

8) Criatividade, alegria e leveza são diferenciais. Em um mundo tão agitado, a criação de canais privilegiados para potencialização das novas idéias, do bom-humor e da tranqüilidade podem gerar resultados surpreendentes.

9) Um ambiente inovador, arejado e leve é estimulante do bem. O meio propício impacta diretamente na criatividade, na geração de novas idéias, no reforço das crenças e dos princípios.

10) Sempre é tempo, de recomeçar, de inovar, de amar, de lutar, de crescer, de construir, de desejar.

QUE VENHA 2009 E SUAS IMENSAS POSSIBILIDADES!

Nós não temos guardanapo!

Férias da criançada sempre é um tempo de mais trabalho para os pais. Além de não contar com a tranqüilidade de ter os professores e a escola cuidando dos pequenos, ainda é necessário cumprir obrigações do tipo shopping center, zoológico, praças, parquinhos de diversão, piscinas, praias, pula-pula.

Claro que tem um lado muito bom, mas exige atenção, responsabilidade, cuidado, orientação e muita paciência.

Nessa segunda semana de janeiro, já em ritmo frenético no trabalho, logo na segunda-feira, aquele dia em que tudo é mais lento, pois ainda estamos sob efeito das delícias do final-de-semana, a filha de 9 anos propõe ainda pela manhã: “Papai, vamos assistir a um filme massa hoje à tarde?”.

Primeiro, a explicação que a agenda de compromissos à tarde já está completa, sem chances de abrir mão do trabalho, ainda que o papai seja proprietário da empresa em que trabalha.

Mas a culpa fala mais alto e o papai propõe: “Quem sabe ao final da tarde? Combinamos no almoço.” A última frase criou a obrigação, incrementada com o convite para uma amiguinha ir junto, já sacramentada e articulada logo na chegada para a refeição em família.

Assim, depois de exaustivo e pouco estimulante dia de árdua labuta, o início da noite reserva uma ida ao shopping center, templo do consumo e da vida fácil moderna.

Os cinemas de rua acabaram. De qualquer modo, filmes para crianças não passariam em locais sem as lanchonetes de fast food, batatinhas e refrigerantes gigantes. Antes disso, a espera pela amiguinha, que ainda está “arrumando o cabelo”.

A saída de casa ocorre com uma antecedência inferior ao mínimo necessário, o que gera certa apreensão.O trânsito flui bem e a bilheteria tem apenas um guichê funcionando, com uma fila considerável. Não aceita cartão, não aceita cheque. Só cartão de débito e dinheiro.

Na chegada, dois adultos e três crianças pagam R$ 60. O humor do papai muda repentinamente. Ele pensa: “Será que ainda vão querer pipoca?”. Logo na entrada, aquela consulta recheada de ingenuidade: “Papai, eu quero pipoca e refrigerante.” Como forma de adiar o sofrimento, o adulto propõe sentar primeiro, se acomodar, assumindo o compromisso de depois retornar para comprar a indispensável pipoca.

Entrando na sala, com o filme começado, a filha volta a solicitar: “Papai, vai comprar agora?” Ele resiste: “Daqui a pouco!” Já não consegue esconder a irritação.

Na terceira pergunta, o pai levanta e segue em busca das guloseimas.

O filho de três anos levanta e grita: “Papai, quero ir junto com você!”.

O papai volta e convence o pequeno, após cinco minutos, a ficar sentado com a mamãe, a irmã e a amiguinha.

Finalmente, o papai entra na fila da pipoca dentro do hall de entrada das salas.

Pipoca, doces e refrigerantes só podem ser comprados ali.

Só aceita cartão de débito e dinheiro. Cheque e cartão de crédito não. O preço é majorado em 200% por esse motivo. Dizem que os cinemas lucram mais com as vendas de guloseimas do que com os ingressos. Imagine se aceitassem cartão? Não suportariam permanecer abertos…

Total: quase R$ 40 por quatro pipocas e quatro refrigerantes.

Ou seja, em resumo, a ida com três crianças para ver um filme de animação (Bolt, o super cão – interessante, bem feito, história fraca, efeitos especiais acima da média) custa R$ 100, um quarto de um salário mínimo, que algumas pessoas demoram um mês dando duro para receber.

Mas o que mais irritou não foi nada disso. O papai teve que abrir 04 canudos embalados individualmente, levar as embalagens até o lixo, carregar quatro copos de refrigerante de 500 ml e quatro pipocas transbordando até as poltronas finais da sala ao final do corredor.

Não sem antes ouvir da atendente uma pérola, quando solicitou guardanapos para a higiene das mãos e bocas das crianças durante e pós-consumo: “Nós não temos guardanapo”. O papai perguntou se estava em falta. A atendente informou que “a empresa não compra e não disponibiliza guardanapo”. Ele retruca indignado: “O preço que vocês cobram deve ser insuficiente para cobrir o custo desse item…”

Estamos falando de Salvador, cidade turística, superpovoada no verão, que exige qualidade de serviços diferenciada. Será que esse seria o padrão das redes internacionais de exibição de filmes? Vale à pena incorporar essas práticas? Em breve, sanduíche classe mundial no tabuleiro da baiana de acarajé! Ou será apenas falta de qualificação? Nos cinemas norte-americanos não se oferece mais guardanapo? É moda?

Ao voltar, quando o filme começa a ficar interessante, o pequeno diz: “Papai, quero fazer xixi”. A mulher emenda em seguida: “Compra um chocolate para mim”. Mais uma saída da sala até o banheiro, uma passagem na lanchonete interna e o retorno para a confortável poltrona.

Ao final, entregamos sacos vazios e copos descartáveis ao rapaz do lixo.

E começa tudo de novo: “Papai, o que vamos jantar?”

Cinema com os filhos é sempre um programa muito legal…