Arquivo do mês: agosto 2009

As dores do mundo

“… eu vou, esquecer de tudo, as dores do mundo, não quero saber quem fui, mas quem sou.” JQuest

Eu tinha verdadeiro horror do Jota Quest até recentemente. Achava as músicas muito melosas e forçadas. Não gostava do estilo do cantor. Todos os que conviveram comigo mais de perto sabiam das minhas restrições. Mas isso mudou.
Em uma noite, no começo de 2009, assisti ao show deles no Planeta Atlântida, evento que acontece no litoral gaúcho, próximo ao Festival de Verão de Salvador. Antes da apresentação, assisti a uma entrevista do vocalista Rogério Flausino e gostei da linha de argumentação, das ideias, da forma de se referir ao público.Achei tranquilo, legal. Com isso, decidi ver o início do show. Vi até o fim, gostei, passei a curtir. Superei as barreiras que impediam esse olhar mais flexível.

Mas esse post não é sobre Jota Quest. É sobre a vida, as mudanças, a flexibilidade, o ver de novo com novos olhos.
Em nosso dia-a-dia, convivemos com seres muito diferentes entre si. “De perto ninguém é normal”, já dizia Léon Tolstoi. Cada um tem seus motivos para sofrer, permanecer frustrado ou desesperado(a). Mas estou profundamente interessado na questão de permanecer na mesma, mesmo com tudo isso sendo percebido, comentado, claramente perceptível. Grandes problemas que não são enfrentados com pequenas soluções. Pessoas que passam a vida sem tomar a atitude que todos sabem que deve ser tomada. Geralmente, são os mesmos (as mesmas) que mais reclamam de tudo isso!
Mas por que não fazem diferente?
Por que temos tanta dificuldade de alterar nossas práticas?
Falo isso tanto quando estamos na zona de conforto, “na boa”, quanto quando estamos na pior, arrasados, sem forças para reagir, na verdadeira zona de desconforto, na m.
Na última terça, participei de um evento chamado Universo Totvs em Salvador. Não pude ficar por toda a programação, mas assisti a partes fantásticas.
Destaco a palestra de Steven Dubner. Vale a pena! Ele falou sobre nossas vidinhas acomodadas, infelizes, sem graça, reclamando de tudo. O olhar dele parte da realidade dos deficientes, por conta da história de vida dele.
Aquilo me tocou intensamente e me fez passar a olhar o mundo de um modo mais próximo da minha essência, mais perto do que é importante. Passei a olhar em meu redor com olhos mais atentos. Foi aí que aflorou a percepção desse padrão de comportamento descontentamento – reclamação – cansaço – não tomar atitude – mais descontentamento – mais reclamações – mais cansaço – ainda menos atitudes ou atitudes de fuga – mais infelicidade.
Me senti assim quando as coisas mais importantes da minha trajetória aconteceram. Aqueles momentos em que tudo para e só fica o que é realmente importante. Infelizmente, na maior parte do tempo de nossas vidas ficamos com nossas vidinhas, preocupados com bobagens, com espinhos bobos, sem olhar para as rosas, e elas estão lá, ou estão para florescer…
Depois desse petardo no coração, nos dias seguintes procurei tentar entender as realidades de cada um e analisar porque não mudam o que incomoda.
Não fiquei numa de julgar, criticar, mas de tentar entender as limitações, para ver como ajudar.
Passei a fazer comentários e perguntas, tentando fazer as percepções mais claras.
Acho que foi em vão.
As pessoas sabem porque as coisas não estão bem e não escolhem outros caminhos por acomodação, preguiça ou crença de que as mesmas atitudes devem gerar resultados diferentes. Quem vai saber o que é certo? Quem vai entender esse ser humano?

Por fim, um vídeo mostrado na palestra do fundador da Associação Desportiva para Deficientes (www.add.org.br), sobre um pai e um filho.
Será que o pai ficou em sua vidinha acomodada quando foi desafiado pelo filho para o desafio?
Será que precisamos de grandes traumas para mudar nossos rumos?
Estamos esperando o quê para sermos felizes?

Chega de reclamar das dores do mundo, como diz o Jota Quest em sua canção.

O que você acha?

Linha de Passe

O filme de Walter Salles é um primor de enredo e execução. Aquele tipo de filme que não deixa você sair da frente da tela, envolvendo o espectador do início ao fim. É surpreendente como as classes mais abastadas estão distantes da realidade mostrada no filme. Em muitos momentos, senti agonia de assistir a situações constrangedoras, quando comparadas com nossas vidinhas. As relações da empregada doméstica com a patroa, os anseios dos personagens, a convivência com as dificuldades do dia-a-dia de modo quase inevitável, a superação das dificuldades, o determinismo do futuro daquelas pessoas são muito perturbadores.

Assista de peito aberto e pense em tudo que acontece em nosso país e que poderia ser muito diferente. Veja o brilho de todas as pessoas e anteveja o que seremos no futuro próximo. Sarney é fichinha…

Que país é esse?

Hoje vacilei e acabei assistindo ao Jornal Nacional.Só lembrei da música do Legião Urbana. Sou Geração Coca-Cola mesmo, somos Another Brick on the Wall. E está faltando isso por essas bandas…

Primeiro a alegria com César Cielo. Realmente vibrei muito no início da tarde com o desempenho do cara, com a demonstração de sensibilidade com o hino nacional, coma recompensa pelo esforço de toda uma vida. Mas depois lembrei do menino que teve que sair do Brasil para ser grande, por falta de condições para treinar, de apoio, de políticas sérias para o esporte. Lembrei de quantas outras mentes e corpos brilhantes que precisam sair do país para vencer e de quanto perdemos com isso. Recentemente, nosso campeão mundial de ginástica Diego Hipólito estava na Tv dizendo que pensava em largar o esporte competitivo por falta de patrocínio para disputar uma das etapas do circuito mundial, onde era o Líder! Para não falar apenas de esporte, podemos citar exemplos nas ciências e na tecnologia.

Segundo, uma mãe de Rondônia querendo dar os órgãos de sua filha que está aguardando a morte, por conta de uma doença grave, mas o estado de Rondônia não tem capacidade para captar outros órgãos, que não córneas. Milhares de pessoas nas filas dos transplantes e não temos estrutura mínima para salvar vidas no país. O melhor hospital de Rondônia, um dos estados brasileiros, tem restrições grandes.

Terceiro, os gols do sábado para animar os fanáticos. Mas os gols de Fortaleza 3 x 2 Bahia não são mostrados na totalidade, porque tem que passar os gols do Vasco e do Palmeiras. Falta de respeito com milhares de telespectadores do pobre nordeste.

Quarto, a notícia de que um desembargador do DF proibiu o Estadão de divulgar supostas falcatruas de Fernando Sarney e os seus amigos. Até quando vamos viver o patrimonialismo no Brasil? Quando vamos nos livrar desse ranço e adotar os ideais da Revolução Francesa, que só se tornaram lições há 220 anos?

Para terminar, ao longo de todas as chamadas de intervalos, o gancho era a volta de Marta, a melhor jogadora de futebol do mundo, ao Brasil, para jogar no Santos. Mas assim com Cielo, sempre tem um detalhe obscuro: ela está voltando apenas por três meses dos EUA, para jogar um campeonato apenas. Vem tirar umas férias no Brasil. Esse país é bom para isso mesmo, diversão, lazer e negócios. No futebol, mandamos nossos pupilos de 19 e 20 anos para os mercados ricos ou nem tanto (Turquia, Catar, Grécia) e trazemos de volta jogadores com 30 anos, após lesões, escândalos, noitadas e dinheiro.

Quase esqueci que via também outras duas reportagens muito interessantes. Uma falava dos 41 containers de lixo que recebemos da Inglaterra e que foram devolvidos hoje. Esse pegamos, mas quantos outros entraram e nunca ficaremos sabendo?

Por fim, mesmo, o Brasil está com falta de molibdênio, material fundamental para a realização dos exames de cintilografia, usados para investigações em casos de condições traumáticas, tumores (primários e metastáticos), artrites, infecções, doenças ósseas metabólicas, lesões ósseas, doenças vasculares e hemorragia digestiva baixa. O fornecedor canadense está com sua planta paralisada, a Argentina está fornecendo um terço da necessidade nacional e agora foram abertas negociações com fornecedores sul-africanos para que possam minimizar as necessidades do país. Enquanto isso, 5 mil pessoas deixam de ter diagnósticos precisos para suas doenças, ficando totalmente vulneráveis.

Por que não produzimos molibdênio? Porque somos dependentes de tecnologia em diversas áreas. Porque nossos filhos vão brilhar no exterior. Porque nossas crianças não tem boas perspectivas, principalmente no norte, no nordeste e nas periferias das grandes cidades. Porque a corrupção detona o Brasil.

Que país queremos? Esse do JN? É o melhor que podemos fazer, geração Coca-Cola?

Será que nossos filhos não vão nos crucificar no futuro por termos deixado isso tudo permanecer assim?